Litoral Norte
As comunidades negras do litoral norte-fluminense concentram-se ao longo das terras da antiga Fazenda Campos Novos, originalmente propriedade dos jesuítas. Após a expulsão dos jesuítas, o domínio das terras coube ao Estado, mas a região passou para as mãos de arrendatários e ocupantes, que, ao longo da primeira metade do século XIX, atuaram ativamente como intermediários na chegada clandestina de escravos africanos. A presença de terras livres na região e a proximidade de importantes áreas escravistas de produção de café e açúcar do norte fluminense (Vale do Paraíba oriental e planície campista) mantiveram a região como área de atração para um campesinato negro, de origem quilombola ou já legalmente liberta, na segunda metade do século XIX. Desta forma, originaram-se muitas comunidades negras da região (por exemplo, comunidades remanescentes de quilombo de Caveira, Botafogo, Rasa, Preto Forro ). Como no litoral sul do estado, a memória do tráfico negreiro, bem como os registros da prática do jongo, de calangos e folias, vêm sendo identificados por cientistas sociais e pesquisadores desde a primeira metade do século XX.
“Era o jongo, o banguelê, o batuque dos negros, folias, muita coisa mesmo. Nas festas juninas, na festa de Santo Antonio, tinha melado e quentão para os pretos. Tinha uma fazenda que ficava ali perto do cemitério, com duas amendoeiras grandes, fazenda grande, patrimônio formidável. Era bem em frente ao matadouro. Lá morava o casal Santiago e Guidinha que eram dois negros, velhos e pequenininhos, que botavam o jongo nas festas de Santo Antonio, no largo do Convento. Eles eram os festeiros. Eles armavam um cercado de corda e traziam os instrumentos, tambores e puíta.”
Antonio Gastão sobre sua juventude, vivida entre as décadas de 1940-1950, em Cabo Frio.
Concentramos as entrevistas dos primeiros dois anos do projeto no Quilombo da Rasa. A Rasa é um bairro do município de Búzios, localizado na baixada litorânea. Seus moradores formaram a Associação dos Remanescentes de Quilombo da Rasa, que, desde 1998, luta pelo reconhecimento da comunidade e pela titulação das suas terras. A memória de uma herança africana e as histórias dos tempos do cativeiro e da liberdade consolidam a criação de uma identidade negra e quilombola. A conversão de grande parte dos membros da comunidade da Rasa ao protestantismo, na década de 1950, não apagou as recordações do jongo, das festas de folia de reis, de calango e das festas do boi. As reuniões da Associação dos Remanescentes de Quilombo da Rasa realizam-se na casa da presidenta, D.Carivaldina Oliveira da Costa.
Contatos
Associação dos remanescentes de Quilombo da RasaTel.: (22) 623-7208
